Era uma vez
(Edição de dezembro de 2000)
No último dia de férias, Lilico nem dormiu direito. Não via a hora de voltar à escola e rever os amigos.
Acordou feliz da vida, tomou o café da manhã às pressas, pegou sua mochila e foi ao encontro deles. Abraçou-os à entrada da escola, mostrou o relógio que ganhara de Natal, contou sobre sua viagem ao litoral. Depois ouviu as histórias dos amigos e divertiu-se com eles, o coração latejando de alegria.
Aos poucos, foi matando a saudade das descobertas que fazia ali, das meninas ruidosas, do azul e branco dos uniformes, daquele burburinho à beira do portão. Sentia-se como um peixe de volta ao mar. Mas, quando o sino anunciou o início das aulas, Lilico descobriu que caíra numa classe onde não havia nenhum de seus amigos.
Encontrou lá só gente estranha, que o observava dos pés à cabeça, em silêncio. Viu-se perdido e o sorriso que iluminava seu rosto se apagou. Antes de começar, a professora pediu que cada aluno se apresentasse. Aborrecido, Lilico estudava seus novos companheiros. Tinha um japonês de cabelos espetados com jeito de nerd. Uma garota de olhos azuis, vinda do Sul, pareceu-lhe fria e arrogante. Um menino alto, que quase bateu no teto quando se ergueu, dava toda a pinta de ser um bobo. E a menina que morava no sítio? A coitada comia palavras, olhava-os assustada, igual um bicho do mato. O mulato, filho de pescador, falava arrastado, estalando a língua, com sotaque de malandro. E havia uns garotos com tatuagens, umas meninas usando óculos de lentes grossas, todos esquisitos aos olhos de Lilico. A professora? Tão diferente das que ele conhecera... Logo que soou o sinal para o recreio, Lilico saiu a mil por hora, à procura de seus antigos colegas. Surpreendeu-se ao vê-los em roda, animados, junto aos estudantes que haviam conhecido horas antes.
De volta à sala de aula, a professora passou uma tarefa em grupo. Lilico caiu com o japonês, a menina gaúcha, o mulato e o grandalhão. Começaram a conversar cheios de cautela, mas paulatinamente foram se soltando, a ponto de, ao fim do exercício, parecer que se conheciam há anos. Lilico descobriu que o japonês não era nerd, não: era ótimo em Matemática, mas tinha dificuldade em Português. A gaúcha, que lhe parecera tão metida, era gentil e o mirava ternamente com seus lindos olhos azuis. O mulato era um caiçara responsável, ajudava o pai desde criança e prometeu ensinar a todos os segredos de uma boa pescaria. O grandalhão não tinha nada de bobo. Raciocinava rapidamente e, com aquele tamanho, seria legal jogar basquete no time dele. Lilico descobriu mais. Inclusive que o haviam achado mal humorado quando ele se apresentara, mas já não pensavam assim. Então, mirou a menina do sítio e pensou no quanto seria bom conhecê-la.
Devia saber tudo de passarinhos. Sim, justamente porque eram diferentes havia encanto nas pessoas. Se ele descobrira aquilo no primeiro dia de aula, quantas descobertas não haveria de fazer no ano inteiro? E, como um lápis deslizando numa folha de papel, um sorriso se desenhou novamente no rosto de Lilico.
Texto de João Anzanello Carrascoza Ilustrado por Daisy. Revista Nova escola online: Acessado em 08/12/2006
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Trabalhando com o texto...
- Esse texto conta uma história? História de quê?
- Quais foram os sentimentos vividos pelo personagem Lilico?
- Quem são as personagens desta história?
- Há uma personagem principal? Justifique sua resposta utilizando elementos do texto.
- O narrador dos fatos é também um personagem? Como você chegou a essa conclusão?
- Onde se passa a história?
- Qual foi o tempo de duração dos fatos narrados e que recursos linguísticos o autor utilizou para sinalizar/indicar esse tempo?
- É possível afirmar que o texto apresenta uma introdução, o desenvolvimento e um desfecho? Procure marcar no texto essas três partes.
- Lilico teve oportunidade para refletir e mudar a sua visão a respeito de seus novos colegas? O que ele descobriu a respeito deles?
- Leia os fragmentos abaixo, extraídos do texto:
- O que sinalizam as palavras em negrito?
- Que efeitos de sentido o uso dessas palavras provoca? Por que esse tipo de recurso é importante na narrativa?
“Sentia-se como um peixe de volta ao mar. Mas, quando o sino anunciou o início das aulas, Lilico descobriu que caíra numa classe onde não havia nenhum de seus amigos”.
- Por que a personagem Lilico disse que sentia-se “um peixe de volta ao mar”?
Que efeito de sentido o uso da palavra “mas” (em negrito) provoca? Que outra palavra pode substituir o “mas” sem provocar prejuízo de sentido para o texto?
Gabarito
- Sim. O texto narra uma experiência de Lilico no último dia de férias e no começo do ano letivo, quando ele não está mais na mesma turma que seus amigos e precisa conviver com novos colegas. A “história” é, portanto, sobre estranhamento inicial → apresentação/convivência → reflexão e mudança de visão sobre as diferenças entre as pessoas.
- Lilico vive uma sequência de sentimentos: alegria e expectativa ao voltar e rever os amigos, perplexidade e deslocamento ao perceber que está em turma diferente, tristeza e aborrecimento diante do silêncio e do “estranhamento”, confusão e angústia leve ao se sentir perdido e reinterpretação, no final, quando passa a enxergar com mais encantamento/positividade as diferenças.
- Lilico (personagem principal), os amigos de antes (aparecem como referência/ausentes na turma nova), os colegas novos (gente “estranha” no começo, depois apresentados), aprofessora (figura que manda os alunos se apresentarem).
- Sim, Lilico. Isso fica claro porque o texto acompanha o que Lilico sente e pensa , acontecimentos são organizados a partir do ponto de vista dele (ele “acordou feliz”, “viu-se perdido”, “sentia-se aborrecido”).
- Não, pois ele não participa da hisória. Isso fica claro com o uso de verbos e pronomes em 3a. pessoa ao lonmgo de todo o texto: "Acordou feliz da vida, tomou o café da manhã às pressas, pegou sua mochila e foi ao encontro deles."
- Na escola (entrada da escola, sala de aula, início das aulas e recreio, momento da tarefa em grupo).
- Duração: um período curto, ligado ao “último dia de férias” e aos primeiros momentos do início das aulas (começo do ano/primeiro impacto na volta). Percebe-se isso pelo uso de expressões de marca temporal: “O último dia de férias”, “Não via a hora de voltar”, “quando o sino anunciou o início das aulas”.
- Sim. Introdução: volta das férias e expectativa de rever os amigos (Lilico feliz). Desenvolvimento: choque por não estar na mesma turma + observação dos novos colegas + apresentação e convivência com o grupo Desfecho: momento em que Lilico passa a reconstruir seu olhar sobre os colegas/diferenças (reflexão final)
- Sim. No começo, ele interpreta os colegas como “estranhos” e sente desconforto (vê-se perdido, o sorriso apaga). Com a convivência e a atividade coletiva, ele percebe que seus colegas não eram “gente estranha”, erá diferentes das que ele conhecia anteriormente e viu a oportunidade de fazer novos amigos.
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Habilidades e descritores presentes nestas atividades
Descritores SAEB
- D1 - Localizar info. explícita. - Avalia a capacidade do aluno de encontrar uma informação que está escrita diretamente na superfície do texto.
- D3 - Inferir sentido de palavra/expressão. - Avalia a habilidade de deduzir o significado de uma palavra desconhecida ou um termo conotativo (sentido figurado) com base no contexto da frase ou do parágrafo.
- D4 - Inferir informação implícita. - Avalia a capacidade do aluno de "ler nas entrelinhas", ou seja, deduzir uma informação que não está escrita, mas que pode ser concluída por meio de indícios, lógica e conhecimentos prévios.
- D7 - Identificar a tese de um texto. - Avalia a capacidade do aluno de reconhecer a ideia principal, ponto de vista ou opinião defendida pelo autor em textos argumentativos (artigos de opinião, editoriais, cartas, etc.)
- D12 - Identificar a finalidade de textos. Avalia a habilidade de reconhecer o propósito comunicativo do texto, ou seja, para que ele foi escrito (informar, convencer, instruir, emocionar).
Habilidade BNCC
- EF15LP03 - Localizar informações explícitas em textos (e habilidades de leitura de gêneros específicos no 6º ao 9º ano.)
- EF15LP03 - Inferir o sentido de palavras ou expressões desconhecidas em textos, com base no contexto da frase ou do texto
- EF35LP04 - Inferir informações implícitas nos textos lidos (e habilidades de interpretação mais complexas no 6º ao 9º ano).
- Análise de tese/opinião (EF89LP04, EF09LP03) - Associa-se a habilidades como (EF89LP04), que prevê identificar e avaliar teses/opiniões/posicionamentos explícitos e implícitos em textos argumentativos, e (EF09LP03), sobre identificar o posicionamento do autor
Propósito comunicativo/Gêneros (EF69LP03, EF35LP03).
- Associa-se à habilidade (EF69LP03), que foca em identificar, em notícias, reportagens, entre outros, o fato central, suas circunstâncias e as finalidades do gênero, além de habilidades de compreensão global (EF35LP03).
Obs: Embora tenhamos aqui habilidades dos anos iniciais (EF15 e EF35), eles são fundamentais, continuando a ser avaliadas e aprofundadas nos anos finais (EF69) e ensino médio (EM13).
- COSTA VAL, Maria da Graça. Texto, textualidade e textualização. IN: CECCANTINI, J.L. Tápias; PEREIRA, Rony F.; ZANCHETTA JR., Juvenal. Pedagogia Cidadã: cadernos de formação: Língua Portuguesa. v. 1. São Paulo: UNESP, Pró-Reitoria de Graduação, 2004. p. 113-124, In http://crv.educacao.mg.gov.br
- (Atualizado e aprimorado com uso de inteligência artificial)

E as respostas?
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